A Nova Geração

 

O comboio com três carros se aproximava da estação Anjos, na linha verde do metrô lisboeta. O jovem turista brasileiro esperou que o trem parasse completamente e que as portas se abrissem para ingressar no vagão do meio. Naquela manhã de domingo, a linha verde estava tranquila. Talvez porque os lisboetas estivessem aproveitando o domingo ensolarado no Parque das Nações, talvez porque os turistas estivessem aglomerados nas ruas do centro histórico.

De qualquer forma, o jovem turista posicionou-se e o carro se pôs em movimento. Foi então que o som inconfundível de uma gaita começou. Timidamente, como se o gaiteiro estivesse muito distante e progressivamente avançasse, a melodia melancólica crescia. E os olhos ávidos procuravam debalde o que os ouvidos bem percebiam.

Foi na próxima estação, assim que o trem abriu as portas, que o jovem turista o viu. O gaiteiro também era um jovem, só que português, e vinha com um pequeno cachorro ao ombro. O animal se equilibrava no ombro do dono, tendo entre os dentes um pequenino balde para moedas. As pessoas a bordo continuavam em silêncio, ainda que agora as notas melancólicas do fado preenchessem o ambiente. Havia poucas moedas no balde e, curiosamente, as poucas pessoas que contribuíam com o jovem gaiteiro pareciam ser justamente os turistas. Com suas grandes mochilas, máquinas fotográficas ao pescoço e falando diversas línguas estrangeiras, não era muito difícil identificá-los.

Os lisboetas pareciam deliberadamente frios ou indiferentes à presença do jovem, com poucas exceções. E, curiosamente, o jovem gaiteiro veio caminhando até muito perto do jovem turista. Foi então que o jovem brasileiro pode observar aquele jovem português com um pouco mais de cuidado. Era um rapaz de vinte e poucos anos, com barba e cabelo pretos, nem muito alto, nem muito baixo. Nem muito gordo, nem muito magro, ele carregava sua gaita e seu cachorro com muita destreza.

Comovido, o jovem brasileiro observou que a melodia triste expressava o semblante também cinzento do músico. Apesar de jovem, não se via alegria em seu rosto. Seu olhar não brilhava de esperança, como o olhar do jovem turista. Era, todavia, um olhar que um dia foi alegre, que um dia teve esperança, mas que havia esquecido como era ser despreocupadamente feliz.

Boa parte daqueles lisboetas no metrô parecia desviar o olhar do jovem gaiteiro. Chegariam mesmo a tampar os ouvidos se tal gesto não traísse sua velada “indiferença”. “Por quê?”, perguntou-se o jovem turista. Por que os turistas pareciam ser mais generosos com aquele jovem gaiteiro do que os próprios moradores da cidade?

E foi então que percebeu. O jovem gaiteiro não estava ali por opção. Ainda que seus dedos impregnassem o ar de vibrações tristes que iam por sua alma, não era o suficiente para dizer que ele sentia prazer ao tocar. Não. Certamente, ele estava ali porque precisava daquelas moedas.

De alguma forma semelhante, os moradores da cidade presentes naquele vagão não escolheram assistir ao jovem. Na verdade, se tivessem o poder de escolha e, se fosse possível, teriam silenciado peremptoriamente o fado incômodo com um toque numa tela imaginária e o acionar da opção mute. Mas despidos da opção de silenciar o artista, tentavam então ignorá-lo até a próxima parada pelo menos. O jovem turista percebeu pelas fisionomias incomodadas que a melodia triste e a presença daquele jovem gaiteiro desiludido lembravam os lisboetas de algo deveras incômodo.

O jovem inteligente, com um futuro talvez promissor, agora precisava desfilar pelo metrô tocando gaita com um cachorro nas suas costas na tentativa de sobreviver. Era um espetáculo forte demais para o orgulho ferido daqueles lisboetas. Cada nota tristonha era como uma martelada certeira nas feridas ainda abertas daqueles cidadãos de uma Europa em crise crônica. Cada frase daquela melodia era uma ode à Desesperança e à Miséria, as novas ninfas de Camões. E, mais ou menos conscientes disso, aqueles lisboetas tentavam ignorar o jovem com todas as suas forças.

O trem chegou à próxima estação. Parou. As portas abriram. O jovem turista saiu. E foi então que viu o jovem gaiteiro colocar o cachorro no chão e se aproximar de outros jovens também gaiteiros, cada qual com um cão a tiracolo. Jovens, desempregados e desesperançados. A nova geração.

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