O ar estava tenso naquela manhã de segunda-feira. Era como se o ar estivesse carregado com cargas eletrostáticas, apenas aguardando um condutor para causar uma descarga elétrica. O anfiteatro estava abarrotado de gente, o que causava ainda mais ansiedade nos presentes e tornava o espaço sufocantemente perigoso. Cientistas, jornalistas, operadores de câmera, políticos de diversas áreas e poderes aguardavam com indisfarçada preocupação o início daquela coletiva de imprensa. Era como se as suas vidas, e as dos demais brasileiros, estivessem em suspensão, aguardando alguma definição que apenas aquela coletiva poderia dar.
Apesar do desejo de comunicar, de indagar, ninguém ousava falar em voz alta. Os mais ansiosos apenas murmuravam, enquanto a maioria guardava um silêncio loquaz. Os olhos tensos e as testas franzidas diziam mais que palavras. A maioria estava com máscara, mas, mesmo ali, entre aquela seleta platéia, havia um grupo que teimava em não seguir protocolo algum. Os mascarados olhavam com reprovação os de face desnuda. Estavam todos perdidos em suas próprias inquietações quando entrou o Ministro da Saúde.
_Bom dia a todos. Desculpem a demora. Estava em comunicação com a OMS e com a Unesco, relatando a preocupante situação no Brasil – o Ministro interrompeu a fala e passou os olhos pelo auditório lotado, dirigindo um olhar perplexo para aqueles sem máscara. Devo dizer que nesse recinto em que estamos temos a comprovação da grave situação que o país vive. Mesmo com a pandemia do Covid-19, o auditório está lotado, sem distanciamento social e, pasmem os senhores, há pessoas aqui sem máscara!
Os membros da platéia se entreolharam. Aqueles sem máscara tiveram ímpetos de analisar as fissuras do carpete em busca de uma saída de emergência. Antes que a coletiva de imprensa pudesse ser iniciada, o Ministro ordenou que apenas um terço dos presentes continuasse no recinto. O restante poderia acompanhar a reunião através de um telão do lado de fora e suas perguntas seriam anotadas e levadas para o Ministro responder. As pessoas sem máscara deveriam colocar uma proteção adequada no rosto ou deixar o prédio. Finalmente, meia hora depois, uma platéia menor, mais aliviada e com distanciamento social testemunhou o início da coletiva.
_Senhoras e senhores aqui presentes, agradeço pela paciência. Marquei essa coletiva de imprensa após ser informado pelos Secretários Estaduais de Saúde de uma nova pandemia que está se espalhando rapidamente por nosso país. Acredito que os senhores tenham várias perguntas.
_Senhor Ministro, aqui, por favor. Marília Chagas, do Jornal A Esfera. É uma variante do Coronavírus? Ou trata-se de um novo vírus?
_Senhora Marília, infelizmente não se trata nem de variante do Coronavírus, nem de um novo vírus. Ainda não temos todas as informações, mas posso dizer agora que essa “nova” pandemia não é de hoje, já existe há alguns anos, mas apenas agora identificamos seu poder devastador. Trata-se da Pandemia das Fake News.
Um silêncio ensurdecedor impera no auditório. Depois de algum tempo, alguém se atreve a questionar.
_Ministro, Mateus Lacerda, da Revista Era. Desculpe, senhor Ministro, mais isso é uma pandemia? O senhor não está exagerando em chamar uma coletiva de imprensa só para isso?
O Ministro sorriu em reconhecimento à já esperada incredulidade.
_Senhor Mateus, infelizmente não há nenhum exagero. As Fake News, o negacionismo e as teorias da conspiração têm se espalhado nos últimos anos em escala global. Mas no Brasil, em particular, somada à completa falta de empatia às vítimas da Covid e à irresponsabilidade perante os protocolos de saúde, essa nova Pandemia das Fake News tem contribuído para chegarmos à triste cifra de centenas de milhares de mortos. Caso estivéssemos lidando apenas com o Coronavírus, a situação já seria grave. Mas o problema se torna muito maior ao termos que lidar simultaneamente com duas pandemias.
_Ministro, Karina Queiroz, da Rádio KD89. Segundo as informações disponíveis, quais seriam os sintomas de uma pessoa infectada pelas fake news e pelo negacionismo?
_Que bom que a senhora tocou nessa questão. Bem, ainda são informações preliminares. Nesse momento, equipes interdisciplinares das Ciências da Saúde e das Ciências Humanas estão trabalhando conjuntamente para estudar as alterações de comportamento provocadas pela nova pandemia. O que podemos dizer nesse momento é que a pessoa infectada vai se tornando cada vez menos crítica, perdendo sua capacidade de pensar autonomamente, cada vez mais passa a compartilhar informações sem checar e a acreditar em afirmações sem suporte científico. Alguns cientistas acreditam também que há uma crescente insensibilidade, uma diminuição na capacidade de se identificar com as situações vividas por outras pessoas. Outros pesquisadores entendem também que há uma maior polarização através da formação de “bolhas”, em que apenas se busca a validação das próprias ideias e não uma discussão política de fato.
_Ministro, Otacir Moreno, do site LOL News. Qual a relação entre essa insensibilidade que o senhor apontou e a polarização?
_Bem, os estudos preliminares parecem apontar para uma gama de fatores interligados. Essa sensibilidade ou empatia é algo fundamental em termos de ética para vivermos em sociedade e para lidarmos com as diferenças. Nesse sentido, para haver política de fato, para realizarmos esse nosso potencial humano de seres políticos, é necessário que haja uma certa capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa e de se estar aberto a ideias novas. É dessa forma que, ao reduzir a sensibilidade das pessoas, a nova pandemia das Fake News também acarreta uma maior polarização entre elas. Há também uma provável correlação com o discurso de ódio e até mesmo a violência física de fato. Temos observado um aumento nas denúncias de agressões físicas e verbais, principalmente contra mulheres, pessoas trans, pessoas negras, indígenas e pessoas em situação de rua.
_Ministro, Reginaldo Sales, blogueiro e digital influencer. O senhor não tem vergonha de criar mais medo na população? Não bastasse essa pandemia inventada do vírus asiático, agora o senhor me vem com outra pandemia?! Tá querendo falir o país?
O Ministro suspira, levanta a máscara para tomar um gole de água, abaixa-a e, então, responde:
_Bem, acho que sua pergunta é bastante oportuna por nos oferecer uma amostra de um discurso argumentativo não factual, ou seja, a popularmente conhecida “teoria da conspiração”. O que observamos, senhor Sales, é uma correlação entre o negacionismo, as teorias de conspiração e fake news com uma crescente irresponsabilidade em relação aos protocolos de distanciamento social, uso de máscara e limpeza das mãos. Não há nenhuma evidência científica para justificar a qualificação da pandemia do Coronavírus como “asiática”, pois, afinal, o vírus já se espalhou pelo mundo inteiro, infectando as mais diversas pessoas e causando as mortes de milhões. Aliás, essa falta de insensibilidade a que me referi antes também parece causar um completo desprezo pelo sofrimento das vítimas de Covid e de seus familiares. As pessoas acometidas pela nova pandemia de Fake News parecem tentar racionalizar de diversas formas a crença completamente irracional de que seriam imunes ao Coronavírus ou de, caso fossem infectadas por ele, que não sentiriam nada por serem fortes ou terem histórico de atleta. Entendemos da mesma forma as mais diversas fake news sobre as vacinas contra o Coronavírus. Esse comportamento irracional, irresponsável e insensível lhes permite justificar o quer que queiram fazer, sem ter que prestar contas ou se sentirem responsabilizados por outras pessoas. Ou seja, se o Coronavírus assola muito rapidamente o corpo humano, impedindo até mesmo a respiração nos casos mais graves, as fake news, teorias da conspiração e negacionismos assolam as pessoas, ameaçando mesmo a vida em sociedade. Como podemos combater a pandemia do Coronavírus se há crescente desunião entre as pessoas, ódio, oportunismo, individualismo, irresponsabilidade e insensibilidade?
_Ministro, Marília aqui novamente. O que o senhor pode nos dizer sobre as causas dessa nova pandemia e o que pode ser feito para evitar o contágio?
_Bem, as informações ainda são preliminares. Há muito que não sabemos ainda, mas os estudos apontam que a exposição prolongada às redes sociais é um dos principais fatores de risco. Por isso que disse antes que não se trata de um problema de hoje, mas é algo que com certeza se tornou mais crítico no período conturbado em que vivemos. Afinal, há alguns anos atrás já observamos algumas importantes fake news aparecendo, tais como o suposto kit gay e uma certa mamadeira... Tudo era falso, obviamente, mas as pessoas infectadas pelo fake news não se importam com checagem de fatos, nem com comprovação científica. Observamos exemplos similares até mesmo em outros países, ainda que não com a gravidade da situação no Brasil. Quanto às precauções para se evitar o contágio pelas fake news, recomendamos a checagem assídua das mensagens antes de compartilhar com alguém – principalmente se oriundas do grupo da família – o bom e velho hábito de se conversar com amigos sobre diversos assuntos – videoconferências devem ser adotadas nesse momento da pandemia do Coronavírus – e reservar um período do dia longe das redes sociais para se ler um livro, meditar, caminhar ou fazer alguma outra atividade que estimule a reflexão.
_Ministro, Karina aqui novamente. Se a pandemia de fake news é algo mundial, porque a situação parece ser mais crítica no Brasil?
_Senhora Karina, ainda estamos analisando essa questão, mas um diretor da Unesco sugeriu que, no caso do Brasil, a evasão escolar, o analfabetismo funcional, o insuficiente investimento em educação pública e de qualidade, assim como a desvalorização da carreira docente ao longo de anos podem ter contribuído para um atrofiamento da capacidade crítica de muitos brasileiros. Expostos a uma crescente quantidade de fake news, e sem ter exercitado a habilidade crítica suficientemente, a maioria dos brasileiros é presa fácil para a nova pandemia. O caso do Brasil demonstra a importância de se valorizar não apenas a educação e a ciência, mas todas as ciências, inclusive as humanas. Nesse sentindo, conjecturando a partir da visão desse diretor da Unesco, posso dizer que testemunhamos no nosso dia a dia a necessidade premente de mais filosofia, sociologia, ciência política, psicologia, linguística e literaturas, história e geografia, entre outras ciências humanas, nas nossas vidas. Se tivéssemos exercitado mais a capacidade crítica, menos pessoas cairiam vítimas de discursos necropolíticos contra vacinas e a favor de medicamentos sem comprovação científica no tratamento da Covid-19, por exemplo.
_Ministro, falando da Covid, quais as estratégias do Ministério da Saúde para o enfrentamento das duas pandemias nos próximos meses? – perguntou o jornalista Mateus.
Nesse momento, quando o ministro abria a boca para responder à pergunta, os celulares de todos os presentes começaram a emitir ruídos insistentemente. Olhares nervosos e atônitos foram rapidamente trocados entre os presentes. Um burburinho crescente foi tomando conta da platéia. Crescentemente irritado, o Ministro interveio:
_Senhoras e senhores, gostaria de responder à excelente pergunta feita pelo jornalista, se possível.
Todos novamente manifestaram um loquaz silêncio. O último jornalista a fazer perguntas, Mateus, foi quem se viu na obrigação moral de dar a notícia ao Ministro.
_Senhor Ministro, acabamos de ver uma mensagem do Presidente em uma rede social. Ele disse que “isso tudo aí é mentira de quem quer paralisar o Brasil. A partir desse momento, esse não é mais Ministro de coisa alguma. Tá demitido! Quem manda aqui sou eu!”.
Desconcertado e envergonhado, o agora ex-Ministro nem conseguiu articular palavra e se limitou a se retirar do prédio. Inconformada, uma jornalista ainda arriscou uma pergunta:
_Senhor Ministro, e agora? E as pandemias?
Muito rapidamente, surgindo como que de lugar algum, um homem até então pouco conhecido se sentou na cadeira ainda quente usada pelo ex-Ministro. O novo Ministro respondeu rapidamente para dirimir qualquer dúvida:
_Que pandemias?
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