Olegario da Costa
Hoje, foi um dia histórico, de uma sequência de dias históricos. Mas não foi um dia fácil. Pelo contrário. Foi um dia sofrido diante do risco de se tornar apenas um dia sofrível. Foi um dia de grandes emoções. Começou com o otimismo da mobilização de massas das últimas semanas. Começou a preocupar com as primeiras notícias de falta de ônibus em Salvador. Tirou o sossego com os muitos vídeos de eleitores impedidos de votar em nove estados brasileiros, em um claro ato golpista de sabotagem do transporte de massa.
A letargia do presidente do TSE Kassio Nunes em (não) tomar providências perante a sabotagem do transporte fez multiplicar a incerteza. A decisão de Cristiano Zanin de garantir a votação até as dezenove horas foi tardia, com a maior parte das urnas já fechada. Apura ou não apura? Abre a urna ou não abre? E os eleitores que não conseguiram votar esperando na frente das zonas eleitorais? E o dia que havia começado com uma enorme confiança agora apontava um intenso medo de nos roubarem aquilo pelo qual tão arduamente trabalhamos nas últimas semanas. E esse medo foi crescendo durante a apuração à medida que Voldemorte parecia tomar a dianteira.
Não aguentei. Tive que tomar medidas drásticas. Fui obrigado a recorrer ao chá de camomila. Não apenas um chazinho, mas um verdadeiro open bar de chá. Um atrás do outro. A "calmomila", somada a um pranayama de Yoga, conseguiu segurar o coração sofrido. E em meio ao caos, Janones insistia que Lula ia virar. Admirei sua confiança inabalável e rezei para todos os santos e orixás. E não é que a virada veio mesmo! E não somente virou, mas cresceu a diferença entre Lulis e o senhor das trevas. Fui obrigado, então, a trocar a camomila por uma cervejinha.
Da camomila à cervejinha. Essa é, aliás, uma boa metáfora não somente para a virada de hoje, mas para toda a eleição presidencial. Se considerarmos o que a vitória de Lula representa em um contexto marcado pelo fortalecimento de governos de extrema direita na América Latina alinhados com Trump, o roubo do petróleo venezuelano, a agressão ao Irã, a cobiça sobre nossas terras raras, podemos perceber que a vitória de Lula representa também uma luta pela soberania do Brasil. Foi Gregório Duduvier que citou os vários adversários reais contra os quais estávamos lutando nessa disputa: Trump, a Meta e big techs, a familícia, a farialima, o crime organizado, Vorcarito...a lista é longa. Uma luta no estilo Davi contra Golias. Parecia quase impossível, principalmente depois da derrota no primeiro turno. Como diz Mauro Iasi (2011, p.183),
"Há aqueles que quando caem não se levantam,
mas há aqueles que se levantam ainda mais fortes,
mais forte que as derrotas,
mais forte que as vitórias vazias,
mais forte que toda a força
que a aurora em vão adia".
Em outras palavras, parecia impossível que Lula conseguisse vencer no segundo turno já que tinha perdido no primeiro. Disseram que era impossível. Disseram que ninguém nunca tinha feito isso. Pois é. Disseram para o cara errado. Pois uma das forças de Lula (e do PT) é justamente tornar o impossível possível. Lula e as políticas sociais do PT combateram o racismo estrutural de uma sociedade marcada pela escravidão, promovendo o acesso à educação superior, combatendo a fome e promovendo a ascensão social de boa parte da população. De certa forma, Lula representa o que o Brasil foi (um país extremamente desigual) e como ele se tornou o que é hoje (promissor do ponto de vista das políticas públicas voltadas aos setores mais oprimidos e explorados da sociedade).
A biografia do Lula representa isso: um nordestino pobre que se torna operário, um operário que se torna líder sindical, um líder sindical que se torna um líder de massas durante a luta pela redemocratização, tornando-se deputado federal e depois presidente (4 x). Isso em um país marcado pelo racismo estrutural e pelo neocolonialismo de suas elites subservientes. O impossível tornado possível.
Mas, se Lula representa esse ponte entre o passado e o presente, Janones representa a ponte entre o presente e o futuro. Nosso querido general é o cara que tem a visão estratégica atual, combinando as táticas das ruas e das redes. Ambos têm muitas coisas em comum, mas destaco esse elemento de canalizar os anseios da massa, os desejos, frustrações e utopias, o imaginário coletivo, a nossa percepção do que é possível e o nosso sonho com o impossível.
Todo movimento tem lideranças, é claro. Mas o poder de fato não é de Lula, nem de Janones. O poder é do povo. Em última análise, quem tem poder é a massa, o proletariado nas ruas. E isso ficou bem claro nas últimas três semanas, com atos de massa em todas as regiões do Brasil. Até mesmo onde não havia tradição de grandes atos, como na capital da agroprovíncia de onde vos falo. Foram diversas ações em diferentes lugares, envolvendo grupos de pessoas diferentes. E vi isso concretamente no ato do último sábado, véspera da eleição.
Vi estudantes. Vi professores. Vi os sindicalistas e os militantes. Vi os pretos, as mulheres e as travestis. Vi jovens e vi velhos. Vi bateria de escola de samba. Vi torcid organizada de futebol. Vi gente do aleluia, de Aparecida e dos orixás. Vi gente calejada de luta e vi muita gente que estava participando de um ato pela primeira vez. Essa é a beleza de um ato de massas. É a força do povo. E é justamente essa força que foi despertada nas últimas três semanas, alimentada também por Janones e seu "exército".
Aliás, não nos esqueçamos que no ano passado a Câmara de Deputados estava relutante em pautar a PEC do fim da escala 6x1. Foi nesse contexto que surgiu a campanha do H*** não se importa e atos massivos que tomaram conta das ruas do país. E foi a força da mobilização nas ruas e nas redes que fez a câmara recuar. Em 2019, foi a força dos estudantes e professores nas ruas que fez o então ministro Weintraub recuar de cortes bilionários na educação. Em 2020, o povo demonstrou sua insatisfação contra o Voldemorte-pai e sua inépcia diante da Covid através de panelaços e atos.
E o povo brasileiro demonstrou novamente sua força nas ruas nessa nova jornada de luta, nas últimas três semanas, pela virada de Lula, pela democracia. Hoje, depois de tanta camomila, é hora de festejar com uma cervejinha. Mas amanhã estaremos de volta à luta, pois todos aqueles que derrotamos ontem virão ao ataque novamente:
"É tempo de festa, tempo de cantar
as velhas canções e as que vamos inventar
Tempos de criar, tempos de escolher.
Tempos de plantar os tempos que iremos colher.
É tempo de dar nomes aos bois
de levantar a cabeça
acima da boiada
porque é tempo de tudo ou nada" (Iasi, 2011, p.167).
GENTE, URGENTE! EXPLODEEE ESSE TEXTO!
#deviradaémaisgostoso
#vitoriadademocracia
#lulapresidente
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